terça-feira, fevereiro 22, 2011

Clareira


Ouvi-o dizer, ao telefone:
- Não, não estou zangado. Eu sou muito paciente.
E aquela frase, em vez de me fazer borbulhar de raiva e querer agarrá-lo pelos colarinhos para o abanar e dizer-lhe que sim, que eu me tinha comportado como uma perfeita idiota, que um carroceiro ao pé de mim parecia um menino do coro, que as palavras que tinham saído da minha boa e o tom que empreguei quando as proferi foram de uma rudeza incomensurável… vi-me a sorrir e a achar aquele gesto enternecedor. E sei que ele percebeu que alguma gota de doçura tinha conseguido espalhar-se em mim.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

sábado, fevereiro 12, 2011

Em modo de solilóquio

É perfeitamente revoltante constatar uma e outra vez que não somos apoiados nas nossas decisões de vida. Implica ter duplas certezas das nossas intenções, implica saber que se vai fazer o caminho sozinho, implica ter que arcar com o mundo às costas e nem ter direito a reclamar pelo excessivo peso.
Quando a atitude já não é novidade e depois de resolvido o nó no estômago, partimos à luta, como habitualmente. Será um repetir de gestos: arregaçar as mangas, ver as instruções, rever mentalmente o plano a seguir, garantir que o plano B, C e D estão prontos a ser accionados, confirmar se todas as forças estão no nível correcto e avançar. Acaba por ser sempre uma descoberta contínua em que, praticamente impedidos de partilhar, acumulamos comoções e vamos enchendo os espaços até há pouco preenchidos pelo vazio. Há forças agora aglutinadas que nos transportam para outro plano, onde um certo contentamento discreto acaba por quase eliminar a dificuldade vivida na partida.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Não ser infeliz


Penso que é muito simples não ser infeliz.

Não se trata de uma frase dita ao acaso ou que tenha segundas intenções ou inúmeras interpretações. É mesmo só isso: a infelicidade não tem que ser a moldura dos nossos dias só porque não conseguimos atingir o tão almejado estado de delirante felicidade. Ou estarei enganada?

domingo, janeiro 30, 2011

De luz e de sombra


No início, tentei encontrar razões para não acreditar que seria possível viver uma história assim. Reflecti e analisei. Muni-me de pretextos e continuei espartilhada, a guerrear pela ideia oca de estabilidade que acreditava ter. E persistia naquele fluxo de palavras que anteriormente tinham traduzido ideias e significado certezas. Um dia e outro dia, engalanada de retórica. Depois, sentei-me e conversei comigo, num dia em que a luz do Outono se mantinha ocupada a desenhar formas esbatidas. E senti que não adiantava protelar mais o inevitável. Passei a dividir-me entre querer absorver as sensações novas, saborear as gargalhadas, ver a tua linha do horizonte, partilhar, conversar e ouvir a tua perspectiva. E acredito… que seremos muito mais que uma referência diluída numa esperança de adolescência retardada ou um estado de optimismo perfeitamente inadequado ao momento.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

R de reaprender

Em momentos de insegurança, serei aprendiz de mim mesma. Das minhas suposições e certezas. Em todos os dias, a partir de agora.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Off... on


Bloqueio, por vezes, a percepção do mundo em meu redor pelas inúmeras interferências que me agudizam a periclitante estabilidade e serenidade. Fico em modo off, off para ironias, off para descréditos, off para incertezas, off para medos, off para quase tudo. Aproveito e inspiro mais calmamente. Deixo-me deslizar e lá estou eu, de sorriso vago, de olhar mortiço, a acenar a cabeça em espírito de aparente concordância, a rir em intervalos programados, sem ouvir, nem absorver nenhuma palavra das que teimam em empurrar para a minha frente. Apetece-me fechar os olhos, ignorar quem impõe a presença, quem tolda a faixa visual que quero manter à minha frente. Quero só viver aqueles momentos zen forçados e tentar voltar ao meu equilíbrio.
Depois de um pedaço de tempo, nem sempre muito previsível, lá consigo regressar e deixar de afivelar a expressão quase esfíngica que me vai protegendo. Lentamente, vou amolecendo a resistência com pensamentos encorajadores, libertando a tensão, descosendo as camadas de dormência com que me tinha tapado.
(Finjo que) estou pronta para outra e lá sigo… em modo on.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

O ano novo

Poderia ter feito uma lista de must do para o Ano Novo e, conhecendo-me como conheço, iria segui-la à risca para, no fim do ano, poder respirar de alívio pelo dever cumprido. Eu sei que o faria. No entanto, este ano a minha única meta a alcançar é: viver intensamente. Só isso, nada mais.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Sim ou não


Poderia ter dito: não venhas. E seria tudo mais fácil. Seguiria os dias, cumpriria as tarefas com um meio sorriso de satisfação que nunca me encheria o coração e regressaria todos os dias a casa acompanhada pela solidão. À noite, regozijar-me-ia pelas energias positivas que o isolamento me tinham trazido, tentando convencer o outro meio sorriso. Mais tarde, recordaria as memórias dos outros e tentaria acalmar a quietude que teima em transbordar do seu limite. Nesse momento, desejaria aquiescer apenas a todas as perguntas difíceis e complexas que me coloco e partir para outra dimensão. E seria certamente mais fácil.
Poderia ter dito, mas não disse.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Basta olhar

Segundo a minha forma prática de ver a vida e numa definição muito simplista, sempre que há uma dúvida, bastará olhar para dentro de nós e procurar e vamos encontrar as respostas. Sei disso. É ponto assente. Mas se olharmos e procurarmos e não encontrarmos a tal resposta? Quer dizer o quê? Que não amadurecemos suficientemente a ideia e por isso não está interiorizada o quanto baste? Há dias que temo que não seja só isso.