terça-feira, abril 06, 2010

Trajectos

E se há dias em que vemos claramente o caminho a seguir porque ele sempre esteve à nossa frente, outros há em que só vislumbramos encruzilhadas e labirintos. Vemos as dobras do caminho, as ervas daninhas que crescem de cada vez que pestanejamos, o quadrante da luz que desenha a nossa sombra, a direcção do vento que revolve o cabelo e recorta os movimentos. E gostamos do sentido que acompanha o percurso. Gostamos de saber que não sabemos se chegamos ao destino. Gostamos do descomprometimento da jornada e da flacidez que talha a articulação das nossas palavras. Calculamos diariamente os dias que faltarão para o próximo cruzamento, sequiosos de novidade, tementes do amanhã. Vivemos resguardados pela macieza do receio, pela certeza da exiguidade e da estreiteza dos dias. Sonhamos com singularidades de um trajecto que não pensamos percorrer. Reclamamos ideais que estão ao largo de um mar calmo mas que não tencionamos navegar, ou até ao alcance do nosso braço que não queremos estender. Prometemos mudar de vida, mas nem de sorriso mudamos…

2 comentários:

Dexter disse...

Por vezes empenhamos tanto em atingir os nossos objectivos, só por si, e esquecemos que é nos pormenores é que esta a felicidade... nos pequenos prazeres, nos detalhes...

fd disse...

Chega-se a resoluções, a caminhos, a esperanças, para depois não os concretizar e, de seguida, colocar-se em causa o que se pensou, vendo-se apenas becos sem saída de “quem pensa demais” e depois tudo se resumir num equilíbrio químico interno que alterna entre estabilidade/leveza e instabilidade/reflexões. Estas últimas, no dia seguinte, já aparecem outra vez sem consequências, num ciclo que se repete. Acredito num final feliz.